Camila molina,

sobre Uma e outra erupção .

Erupção.

 

Vulcões deixam para trás um solo pedregoso, lodoso, antigo, desconhecido até o momento de dormir. Nessa noite, ao acordar em vigília quase sonâmbula, depois de um deserto, só é possível ver uma palmeira da janela acortinada do quarto em Lanzarote. Uma natureza começa assim a ser fotografada, a partir da névoa um pouco dormente do tecido. É uma ação natural e intuitiva. Dela nasce a narrativa não-linear. Fotográfica e com título - “Uma e Outra Erupção”.

 

Doze imagens, assim, resplandecem um sonho doce e primitivo, obscuro – sim, quanto medo dá ser este um pesadelo com um personagem masculino, uma palmeira, um pássaro, uma carcaça da cabeça de animal mostrada pelas mãos de um casal, um pouco de sol e o mar. Atmosfera arcaica, de tonalidades de cinza e azul, guarda um homem deitado com olhos diretos ou de costas. Por paisagens/passagens, ele parece ter dormido e percorrido um território simbólico, sereno, anacrônico, ilhado das coisas banais. É preciso aceitar que não há como entender a leveza de tal estranheza íntima. E ainda, aceitar que estamos sós. A fotografia, à mão, iluminou esse sonho bruto e em quietude. Diurno. Desviou a viagem a Lanzarote para uma espécie de suspensão - entre a verdade e a vontade. De criar.

 

As imagens não são memória, mas silêncios. As fotografias não são, tampouco, retratos. Costas do homem se tornam, formalmente, extensão da folha da palmeira. Corpo e natureza se fundem no sonho de ir e vir numa ilha, entre o vulcão e o mar. Pessoas tergiversadas quase não têm identidade, mas aquele personagem masculino tem, com suas andanças, descansos e sua pele ao sol.

 

Uma e Outra Suspensão.

Uma e Outra Criação. 

Uma e Outra Solidão.

nessas obras de Ilana Lichtenstein.

_

Camila Molina

2011

texto criado a partir de conversas com a artista.


mais textos curatoriais e artigos sobre o trabalho

escritos por:

_ Celie Dailey

_ Camila Molina

_ Cia de Foto

_ Georgia Quintas

_ Glòria Fernández Macías

_ Simonetta Persichetti

_ Mariano Klautau Filho

_ Mario Gioia

_Celie Dailey

(publicação de Daily Serving, em http://dailyserving.com/2012/03/paradigmas/ )

Paradigmas

Located in Barcelona, Paradigmas is a gallery owned by Brazilian artists, and husband and wife

team, Chico Amaral and Angélica Padovani. Their goal is to create a dialogue between Latin

American and European artists, displaying paired works from both continents. Ilana

Lichtenstein and Levan Tsulukidze were brought together for their last exhibition

Casualmente Fotographia (Coincidentally Photography) by curator Gloria Fernández.

Ilana lives in São Paulo and most of her photos in this series “An eruption and another” were

taken on the island of Lanzarote, one of the Canary Islands. Levan has lived in Barcelona for 12

years, and was born and raised in Georgia. His photographs document a summer in Barcelona.

Ilana and Levan are linked by their desire to document, and to leave the photographs

unaltered.

Ilana’s photographs document the small space between photographer and her subject. The

images are often textured by the grain of slide film in low light, sometimes made milky as

though looking through a window, or catching the shadows of an event. Printed on cotton

paper, Ilana’s photos feel soft and intimate. No glass covers the work when displayed so the

depth of blackness is not impeded by shine.

Levan chooses to step back, sometimes looking at the landscape from above, choosing

compositions that are flat with colors heightened by bright light. Though visually in contrast,

both artists evade landmarks or monuments, in search of the quotidian reality of place.

When I began contemplating their work, I was inclined to seek out how their cultural identity

is revealed in their art, but as Ilana wrote in response, “everything is really an amalgam.” She

explains: “I shouldn’t forget that I am at the same time Brazilian, born in the huge city of São

Paulo, with Polish rootsI wouldn’t be able to separate or to define with just a couple of

words which one should be my identity.”

While viewing art in the gallery, before talking with her, I was unable to recognize anything

Brazilian in Ilana’s art, so I asked Chico, the gallery director, if he had any sense of her cultural

background. He said that when me met Ilana, yes, it was clear that she is Brazilian, but there is

nothing in her art that reveals it. He commented on her personal aesthetic of building very

dark, though not depressing, imagery. I wondered if living in the global city of São Paulo had

contributed to a need to internalize and find her personal vision and methods.

Ilana elegantly wrote this response to me: “being born in a big and restless city like mine, I

feel very much attracted to places of silence or emptiness. Or to a kind of feelingwith

sensitiveness, quietude, like on my portraits where people have their eyes closed or are

standing backwards. A quest for a deep breath. At the same time, I will never be sure at what

point this taste for a dark or silent side is a reaction, or if it would have grown the same way if

my great-grandparents had never left Poland, or if we were all born in Japan.”

Levan’s art has a similar feeling of anonymity about it. When I questioned him, he said that he

recognized himself more than his culture in his work, and although he felt like there probably

is some influence on his art as a Georgian, his point of view is global. He sees himself as

distinctly Georgian, but feels comfortable and inspired in Barcelona, and occasionally travels

for work and pleasure, corresponding with me about this article from Vietnam.

The emphasis for contemporary artists is to find their voice. Confined to a geographic location,

artists may find their identity or subject matter from within a group. However, Ilana says “I

don’t have a commitment to doing ‘Brazilian art’, for example, I feel very grateful and fond of

the work of Brazilian-born artists who have composed and still compose my path, and who I’ve

met here.” Our (developed) world has long lost such solid boundaries. The traveler and

migrant are exposed to a vast sea of influence.

it’s the feeling of being in a kind of strangeness that instigates me,” Ilana says of traveling, “I

feel comfortable when not understanding, somehow, because it leads to another kind of

relationship with the entourage.” About a trip to Japan, she says: “I couldn’t read any of the

signs or decode the words spoken, so it was the bliss of a marvelous country open for the

imagination.”

Donald Barthelme spoke about the process of “not-knowing” as integral to artistic endeavor.

Travel is a means to provoke this state of “strangeness”, to be removed from habit and habitual

knowledge, to find that unknown moment of invention.

In her dyptich, Ilana describes the reasoning for her grainy imagery: “as Vilém Flusser – a

Czech philosopher who has lived in São Paulo for a long time – tells, or from what I

understood, it is vital to push the limits of the machine further; at least to try to go beyond its

programme. And also I had very low light and wanted to take the picture of this boy

sleeping” Photography is a medium that strips away the artifacts of the artist’s hand; there

is no brush stroke. Even so, Ilana allowed herself to find this image that is imbibed in her

personality.

The photographers, Ilana and Levan, do not use the figure to make portraits; the camera is not

thrust upon the subjects in the photographs; the role of the landscape is not as background to

the action or character. Instead, the photos are expressive fragments, the subjects are

landscape, and the landscapes show personality. Maybe due to comfort or distance, both Ilana

and Levan photograph people who rarely engage the lens. Instead of dominating the

experience, the photographer is free to observe and is let loose from the reactivity that the

camera often cultivates.

_

Celie Dailey

2012

_ Camila Molina 

1. Para aïmant, de Ilana Lichtenstein

Camila Molina

“A essência da fotografia consiste em ratificar o que ela representa. [...] Nenhum

escrito pode me dar esta certeza. [...] a linguagem é, por natureza, ficcional.” Roland

Barthes, A Câmara Clara

Uma primeira narrativa sobre o processo artístico do inédito “Ensaio sem título” (2012) de

Ilana Lichtenstein se inicia com testemunhos da artista. Certa vez, uma amiga lhe contou que ao

realizar um trabalho como iluminadora de teatro, viu concretizar sua paixão platônica por uma

atriz no ato de iluminá-la no palco, por meio dos refletores. A luz teria adquirido certo dado

tátil nesta experiência. Junte-se a essa história uma reflexão remota, greco-romana, sobre a

faculdade de a luz ter materialidade, “sair dos objetos, em direção aos olhos”, como conta a

fotógrafa.

Sendo a fotografia, na sua definição mais pura, uma escrita com a luz, Ilana Lichtenstein

engendrou uma pesquisa fotográfica sobre o exercício de tocar corpos e coisas através da

luminosidade natural. Há simplicidade surpreendente neste ensejo à prática poética e não

documental de revelar em imagens a luz como toque, como fator de intimidade doce e humana

com elementos que, neste trabalho, ganham a carga de signos – a mão, uma flor, um gato,

derivações de um corpo masculino... Mais ainda, no processo de sua investigação, a artista

optou por excluir a paleta de cor de suas fotografias – o rosa e o amarelo da carne, de flores e

das coisas foram subtraídos das imagens que tinham uma atmosfera escura; ficou o genuíno

(ou imaculado) preto e branco, o mesmo das singelezas de fotógrafos como o japonês Masao

Yamamoto e o checo Miroslav Tichý, para citar algumas das referências de Ilana.

Para descrever e analisar o “Ensaio sem título” convém dizer que na primeira obra da série a

luz atravessa os dedos de uma mão. Trata-se de uma imagem direta sobre a ideia primordial

do duo toque e luminosidade, mas a sequencia de imagens da artista vai se tornando mais sutil

nas outras cinco fotografias que formam este trabalho fotográfico. Em seu ritmo, cada obra vai

se afastando de qualquer vontade simples de registro de uma realidade, um conceito. Mais

ainda, as fotografias de 70 cm x 105 cm, com seus campos quase brancos e tomados de negro,

transformam-se, juntas, em sequencia de seis quadrados cinza na parede da galeria, como

observa a artista. Inevitável pensar em uma raiz minimalista deste conjunto, que nos remete

agora à formalidade evanescente e também cinza do fotógrafo japonês Hiroshi Sugimoto.

No percurso das seis obras do “Ensaio sem título”, a mão ora e outra pontua a representação

do toque – numa flor e num gato -, para depois desaparecer e deixar prevalecer uma relação

da incidência pura da luz em um corpo masculino (sexo, cílios e costas). Ver e tocar através da

luz transforma-se assim em ato fluido representado no conjunto de imagens que se referem à

questão do vínculo. Não à toa a artista paulistana, nascida em 1986, escolheu a palavra “aïmant”,

ímã em francês antigo, como título da mostra. A ideia de conexão magnética, natural e “sem

colisão” violenta, transforma-se em metáfora sobre o encontro e a intimidade delicada – a luz,

dado que pode ser considerado invisível ou imaterial para alguns, ganha uma carga física e

poética nesta série de obras. É ela, afinal, que se relaciona com o gato, com a flor e com o

homem.

"aïmant" aparece também no título da exposição individual de Ilana, não apenas para tratar do

“Ensaio sem título”, mas do diálogo que se estabelece na mostra entre o conjunto das seis

imagens inéditas com os outros trabalhos expostos na Galeria Virgilio. Lá está a série que

venceu este ano o Prêmio Diário Contemporâneo do Pará, “Uma e outra erupção” (2011).

Apresentada agora em São Paulo em sua versão completa de 16 fotografias, cria uma narrativa

de passagens pela ilha de Lanzarote. O mar e a estranheza de encontrar os resquícios de um

vulcão inesperado potencializam a criação de um “tempo suspenso”, afirma a artista sobre este

conjunto de imagens coloridas. Impressas com pigmento mineral sobre papel algodão, cada

obra, de 20 cm x 30 cm, ganha a poética de “paisagem interior”, numa citação que a fotógrafa faz

da obra literária de Caio Fernando Abreu. Expostas em diferentes alturas, criando um ritmo

variante na parede, as 16 fotografias se conectam em dípticos, trípticos ou sozinhas, abrindo

um campo inesgotável de significações para o encontro de memórias.

Há ainda outros trabalhos na exposição, obras pinçadas da série “Lugar” (2012), em que

predominam o verde da natureza (da paisagem ou de uma folhagem) e o rosa do céu. São

registros delicados de pessoas solitárias, mas em comunhão simples com um espaço natural. É

mais uma vez um olhar interior lançado por Ilana Lichtenstein. Por fim, a fotografia “Branca”

traz o mergulho de uma menina em águas prateadas. Imagem em preto e branco, de grande

dimensão (110 cm x 160 cm) remete a outro tempo. Como diz a artista, os riscos e “uma cultura

de pequenas linhas pretas” – que surgiram no processo técnico da ampliação da imagem –

vivem “na piscina da imagem”. A luz simplesmente, materialidade que veio dos gregos, passou

por uma ilha, um vulcão, uma natureza e pela água, é o que conecta a obra de Ilana Lichtenstein.

Dezembro de 2012

Cia de Foto

(texto produzido em paralelo à indicação do ‘Ensaio sem título’ para o Paraty em Foco 2013,

em: http://paratyemfoco.com/portfolios/ilana-lichtenstein/)

Este “ensaio sem título” é formado por momentos que se dilatam em significados apresentados

pelo escuro. Podemos pensar a fotografia como forma de compreender algo muito distinto da

ação de captar, simplesmente, o sentido claro das coisas, pois a fotografia é esse escuro que

envolve, molda, dá forma e, por isso, contamina de penumbra a luz que conta a história.

Ilana, com essa série, nos ajuda a pensar se é possível concebermos a fotografia, antes de tudo,

como uma faculdade humana, uma estrutura discursiva a priori na gente pela qual a nossa

percepção das coisas dependeria da habilidade em constituí-las em formas fotográficas. Seria

preciso explicar que fotografia é essa que poderia ser pensada como predecessora e

transcendente à linguagem institucionalizada no século moderno, pois ela existiria como um

campo do pensamento onde o real é matéria possível de ser manejada de forma crítica. O gesto

desta série reside na construção de uma superfície de atração daquilo que passaria pelo

despercebido. Como em um quarto íntimo, fechado, que por mais que se abram os olhos, ainda

será o escuro o que dará sentido e forma ao que se está vivendo.

_Georgia Quintas

(texto curatorial para a exposição coletiva ‘Fábulas e Encontros’, fevereiro de 2012)

Uma e Outra Erupção (2009-2011), da fotógrafa paulistana Ilana Lichtenstein (1986), reflete o

que poderia ser um sonho, um instantâneo ou simplesmente o recurso de entrever a

lembrança. Num sopro suave, Ilana tece sua trama delicada em mini narrativas que sugerem

modulações de acontecimentos em tempos diversos e não-lineares.

Nesse trabalho sobressai o gesto da fotógrafa como intuição diante da singeleza de momentos

e paisagens. Mas também prevalece o encanto pelo deciframento de histórias que acumulam

emoções, estado de passagens e lugares imaginários.

_

Georgia Quintas

2012

_ Glòria Fernández Macias

(texto curatorial da exposição ‘Casualmente Fotografía’)

CASUALMENTE FOTOGRAFÍA

Dos artistas de lugares tan distantes como Georgia y Brasil confluyen en el mismo espacio en

Barcelona. Pese a esta distancia, Ilana Lichtenstein (Sao Paulo, 1986) y Levan Tsulukidze

(Georgia, 1975) tienen una concepción del arte similar, ya que, si en sus obras presenciamos el

cambio constante de protagonismo entre el paisaje y el personaje, en su manera de trabajar

podemos observar como el intercambio ocurre entre la propia figura del artista y su obra.

Esta característica comporta también un cuestionamiento constante en cuanto al medio

artístico se refiere.

Levan Tskulukidze y Ilana Lichtenstein rompen con la idea de que una fotografía es un registro

de la realidad, un generador de verdades, para mostrarnos un apartado mucho más

introspectivo y cercano a la realidad que vive el propio fotógrafo. La fotografía ha sido

utilizada a lo largo de su historia como un medio de retratar la verdad, de mostrarnos la

realidad a través de imágenes. Esto ha hecho que también se convierta en un arma utilizada

por la política y los medios de comunicación, ya que como bien dice el refranero popular, una

imagen vale más que mil palabras.

(...)

Levan Tsulukidze y Ilana Lichtenstein comparten el interés por la no manipulación de la

imagen que presentan. Este voluntad de mostrar la fotografía tal y como la cámara la registró,

choca también con el interés mutuo de explicar historias que, siempre desde la perspectiva

subjetiva del artista, nos muestren una ficción cercana a la cinematográfica. Es dentro de esta

ficción donde se enmarca el interés también mutuo de retratar espacios a partir de paisajes y

elementos no reconocibles, tratándose pues de escenas personales, paisajes interiores que el

artista decide compartir con nosotros. Artistas como Jean Marc Bustamante (Toulouse, 1952)

nos presentan también una visión parecida de Barcelona. Las series fotográficas llamadas

“Tableau”, o “Serie Barcelona. Something is missing” nos muestran una ciudad desconocida para

la mayoría, una serie de “no-lugares” donde tampoco nos presenta a gente, espacios

deshabitados en la periferia. Se intuye la huella de la gente, pero no la vemos por ningún lado.

A diferencia de Bustamante, Ilana Lichtenstein está interesada en mostrar a las personas. Pero

en este caso los personajes no son gente anónima como en el caso de Tsulukidze, sino que sus

fotografías se nutren de la propia gente que la rodea, dejándonos acceder a su intimidad y

privacidad. En la serie “Una y otra erupción” la artista nos presenta paisajes cotidianos,

consumidos por la oscuridad, donde gente desconocida para nosotros aparece y desaparece

de la escena como si de un storyboard se tratara.

Sorprende saber que esta serie está prácticamente fotografiada en la isla de Lanzarote, ya que

no hay muchos elementos que nos lo indiquen. Son fotografías personales en las cuales no hay

ningún registro del lugar en que han sido tomadas. Las texturas de la tierra, máximo indicador

del espacio vivido por los protagonistas, se asemejan al de una pintura abstracta. Al igual que

Jean Marc Bustamante, que titula sus obras “Tableau” en referencia al soporte pictórico, Ilana

pretende romper las fronteras de la fotografía a través del propio proceso fotográfico. Sus

fotografías, impresas sobre papel algodón, nos dan una textura aterciopelada que también nos

es indicativa de lo que la artista quiere contarnos, y dejando la fotografía sin el clásico

paspartú blanco, pegada al marco, vemos fotografías que bien podrían ser pinturas.

Levan Tsulukidze y Ilana Lichtenstein comparten esta voluntad de no posicionarse como

fotógrafos, sino como artistas, siendo el medio utilizado fruto del proceso y no al revés. Dos

artistas que no se conocen y que coinciden por azar en Barcelona, deciden utilizar el mismo

medio para expresar ideas semejantes, casualmente fotografía.

_

Glòria Fernández Macias

2012

_Simonetta Persichetti

(publicação de Caderno2, O Estado de S. Paulo, em 16 de janeiro de 2012)

LENTES DA SOLIDÃO

Fotografia. Exposição

Mostra em Barcelona reúne imagens de Levan Tsulukidze e Ilana Lichtenstein

A fotografia não era a primeira opção de trabalho de Levan Tsulukidze, que nasceu na Georgia

e há

12 anos vive em Barcelona. Também foi por acaso que a jornalista paulistana Ilana Lichtenstein

descobriu a fotografia. Tudo começou quando ela leu um romance de José Eduardo Agualusa

no

qual uma personagem, fotógrafa, dizia que colecionava luz. Levan se dedica a fotos amplas,

claras, em que o céu é o destaque e a luz é imensa. Ilana trabalha no pequeno, fotos escuras nas

quais, após um olhar acurado, se percebe uma busca intensa. Aparentemente, nada mais oposto

entre os dois. No entanto, a observação aguçada da curadora espanhola Gloria Fernandez

Macias descobriu mais do que antagonismo e agora as séries de ambos serão expostas em

conjunto na Galeria Paradigmas,em Barcelona, que tem como um de seus sócios o brasileiro

Chico Amaral.

Casualmente Fotografia começa amanhã na cidade espanhola. “É verdade que, na aparência, os

dois trabalhos parecem opostos, mas se nos permitirmos uma observação mais acurada

descobrimos que os dois captam uma certa solidão e nostalgia. São diferentes em alguns

aspectos, mas muito parecidos em outros. E é isso, acredito, que faz com a exposição seja muito

rica”, afirma, por e-mail, a curadora.

Em alguns textos, as fotos de Ilana foram definidas como sem relevância, mas como dizia a

ensaísta

americana Susan Sontag, parafraseando o filósofo alemão Walter Benjamin, “ninguém fotografa

o que não é importante”. Nas imagens de Ilana, muito mais que nostalgia ou solidão, imprime-se

o silêncio, o átimo do gesto registrado. “O que chama a minha atenção são os lugares de

sentimento, como se fossem pequenas erupções. Instantes em que os personagens, ou quem

fotografa, estão antes de descobrir algo que a gente nem sabe se eles vão descobrir mesmo”,

escreve Ilana de Portugal.

A “intimidade” que surge em seus registros foge do que nos acostumamos a ver hoje emdia,

quando

as ampliações são, na maioria, grandes e a cor mais grita do que sussurra. E são essas imagens

que

conversam com as paisagens de Levan, cheias de espaços vazios, por onde nossos olhos

passeiam

sem saber no que se fixar, o que as torna ainda mais intrigantes. “Conheço bem Barcelona e

nessas fotos procurei explicar o que a cidade é para mim.De alguma forma, tentei misturar

ficção e realidade”, explica ele. Nesse aspecto, está mais um elo entre os dois ensaios: histórias

a serem contadas, buscas que, na verdade, se encontram no fato de ambos serem estrangeiros

nos locais que registraram: “Quando comecei a formatar a exposição em busca de um discurso

coeso, percebi que muitas das respostas dos dois artistas eramparecidas”, lembra Gloria. “Os

dois veem a fotografia como

um meio para se expressarem, mas nenhum deles se considera fotógrafo. Além do registro,

ambos procuraram expor o próprio sentimento, e se o espaço é importante é quase impossível

identificar o lugar onde foram feitas as fotos. Os dois lidam com uma linguagem mais intimista”,

enfatiza a curadora.

Não é de hoje que se procuram fazer exposições entre olhares de lugares diversos, mas que

acabam

confluindo por meio da linguagem ou melhor da poética imagética. A Paradigmas Galeria, é um

exemplo disso. Criada em Barcelona, entre seus objetivos está o de promover um diálogo

entre artistas brasileiros e espanhóis. “Depois de dez anos em Barcelona, parecia que a cidade

carecia de um lugar de expressões como a que estávamos acostumados no Brasil, onde há uma

diversidade enorme e uma inquietação bem maior do que vemos aqui. Pensamos então em

recuperar amigos,

fazer novos, juntando artistas e curadores dos dois continentes e criar na cidade uma ponte

com a produção brasileira”, relata Chico Amaral.

Com a mescla de três olhares, o da paulistana Ilana, o do georgiano Levan e o da espanhola

Gloria ,a exposição consegue um resultado instigante. “Se a galeria fosse uma casa, as fotos do

Levan estariam na varanda e as minhas no quarto”, comenta Ilana. E parece que a montagem foi

mesmo pensada dessa forma.

_

/ Silêncio. Imagem da série Uma e outra Erupção, da jornalista paulistana Ilana Lichtenstein:

clima intimista em registros que intrigam por nunca deixarem de fora os sentimentos e

emoções do retratado

_ Mariano Klautau Filho

(excerto de texto curatorial para a exposição do III Prêmio Diário Contemporáneo de

Fotografia, março de 2012)

Memórias da Imagem

Os lugares da imagem na experiência da memória

O que são as pequenas histórias de Ilana Lichtenstein, senão as nossas próprias histórias

muitas vezes ancoradas entre a cama e a paisagem? Sim, são histórias de uma vida singular e de

uma memória visual existente na passagem de um dia, de um mês, de um tempo cronológico e

vivido. Porém, quando a artista realinha essas fotografias, observando a potência de cada uma

delas como imagem e suas significações como uma cadeia, abre essa experiência ao público,

divide com ele essa história, instiga-o, lhe oferece enigmas e soluções, revela-o.

_

Mariano Klautau Filho

2012

_ Mario Gioia

(excerto de texto curatorial para a exposição ‘Presenças’, março de 2011)

“Assim se alternavam sem interrupção novos, graciosos e espetaculares cenários, diante de

nossos olhos admirados, até que, finalmente, a capital do novo reino, iluminada festivamente

pelo sol poente, se patenteou à nossa vista (...). Indescritível sensação apoderou-se de todos

nós, no momento em que a âncora deu no fundo de outro continente, e o troar dos canhões, com

irrupção de música de guerra, saudou o almejado alvo, a feliz conclusão da viagem marítima.”1

“O lugar não é unicamente um fragmento de espaço ou um ponto imaginário. Constitui a si

mesmo uma forma de ver, de conhecer e de entender o mundo. Em efeito, ver e pensar o

mundo como um conjunto de lugares fixa uma perspectiva muito particular: passamos a

discernir aspectos singulares, a perceber conexões e distâncias entre pessoas, coisas e

lugares, a assimilar vivências e significados particulares. Quando pensamos em tipos de

lugares _como um bosque, uma rua, uma escola, uma sala, uma cidade_, associamos ideias,

ativamos nossa memória voluntária e involuntária, nos surgem imagens, conceitos e

circunstâncias.”2

Ao aportar no Japão, o olhar de Ilana Lichtenstein certamente se aproximou do tom

encantatório com o qual o Rio de Janeiro foi eternizado em livro por naturalistas no século 19.

Mas a experiência do artista-viajante contemporâneo também se liga a lugares dos mais

variados tipos, e talvez aquela vinculada à memória seja certamente marcante. Por isso,

algumas das imagens inaugurais de Presenças, coletiva que estreia nova sala expositiva na

Zipper Galeria, são de autoria da artista paulistana.

Se a atividade fotográfica corriqueira de Lichtenstein em São Paulo percorre em especial o

retrato, seu foco nas cidades de Tóquio e Kyoto captura suas particularidades

urbano-espaciais. Contudo, o tempo é componente essencial dos elementos ternamente

registrados pela artista. Uma escadaria, uma caixa-d´água, uma alameda, por exemplo, ganham

um status singular, raro. Apesar do predomínio do verde, surgem outras cores nas

composições _como o vermelho_, que se materializam e rompem a neutralidade da corrente

“inexpressiva”3 destacada por Charlotte Cotton em seu fundamental A Fotografia como Arte

Contemporânea.

1. SPIX, Johann Baptist Von & MARTIUS, Carl Friedrich Von. Viagem pelo Brasil – Livro Primeiro.

Edições Melhoramentos, São Paulo, p.42

2. MAH, Sergio (org.). Lugar/Place. La Fábrica, Madri, 2008, p.7

3. COTTON, Charlotte. A Fotografia como Arte Contemporânea. Martins Fontes, São Paulo, 2010,

p.81

_

Mario Gioia

2011